Agora, enquanto tento organizar as palavras e os pensamentos para elaborar minha coluna mensal “dedo de moça”, olho para fora da sala – pela porta de vidro que se mantêm sempre aberta em minha frente – e vejo do outro lado do quintal, no escuro do canteiro, iluminar uma íris que amanhã estará aberta. Ela, que terá sua vida consumida em menos de 12 horas. Tento fugir do tema da brevidade da vida, mas ele está e se configura como reflexão paralela ao que quero mostrar neste texto.
Tudo começou com o livro que li mês passado, “Quando a casa que queima”. Fazia tempo que um texto não me pegava tão profundamente. Ouso dizer que este é o texto mais profundo e revelador que li em minha vida. Não por ter apresentado algo novo, mas pela articulação feita, a exposição tão precisa que Giorgio Agamben revela ali. É ele sem dúvida o motivo deste texto e a razão de tantos dias pensando sobre filosofia e poesia. Sem pretender contar o livro aqui é importante que você saiba que para seguir adiante na leitura desta crônica teremos que fazer um pacto anterior: aceitar que tudo o que se constrói pela linguagem no intuito de esclarecer ou explicar algo é uma mentira. Em outras palavras não há verdade em discursos ou narrativas, pois elas são construções feitas pelo ponto de vista de quem fala.
Você deve estar se perguntando: se tudo é mentira como posso aceitar esse pressuposto como verdadeiro? É, ficou difícil assim. Também me fiz esta pergunta. Vamos tentar de outra maneira: a verdade só pode ser apreendida se abandonarmos conceitos e fórmulas. Sem forjá-la. Assim, se chamarmos a filosofia e a poesia para dar o aval neste ponto podemos afirmar que somente a poesia é capaz de expressar a verdade. Isto porque a poesia é linguagem primeira que estava presente na manifestação original do pensamento humano. A filosofia quer criar o mundo. A poesia é o mundo.
Pensando assim, podemos aceitar a tese de Agamben de que não há história da verdade, mas apenas a história da mentira. Estamos todo este tempo de civilização criando conceitos e buscando explicação para todas as coisas e esquecemos de testemunhar a vida. De ser parte do mundo como o que é e não como quem age. “Não existe testemunhas vivas: testemunhar significa sobretudo morrer. Por isso, a testemunha não pode mentir, o falso testemunho não é um testemunho” é apenas mais uma construção pela linguagem dado pela narrativa de alguém. Isto se dá no momento em que nos afirmamos no mundo. A cada instante que afirmo o “eu” abandono a língua mesma e me entrego ao vórtice da elaboração das ideias, da construção de um discurso que está e deve estar cheio de significados. É o abandono da verdade para ir em busca de sua construção. Sempre que me vejo neste movimento percebo que habita em mim uma significância e um vazio . Uma dicotomia existencial que não posso abandonar, mas cada um desses lados me abandona vez ou outra. É como se a própria existência fosse dada pela dicotomia verdade-mentira num colorido nietzschiano sobre o tecido da linguagem e do pensamento. É o dançar entre meu dialeto e minha intriga. Quando me abandono sou poesia e vivo o dialeto que é minha essência e quando penso, escolho, sinto, vibro, então realizo inevitavelmente minha existência nessa intriga que é meu narrar no mundo. Não posso fugir.
não sei você mas eu por dentro estou quase num nem existo quase na lona no limbo na face escura da lua na rua a ver navios quase imprevisto
não sei você mas eu por dentro estou com um estrepe um engasgo parece indeferimento por dentro é rés movimento é sem balanço sem serventia por dentro um estrago
não fosse o colibri aqui faz pouco tinha me abstido dessa cena tinha desistido desse filme — espelho bissexto e algo turvo — não fora o sol que entendi esplêndido passava batido o entardecer vermelho
pela natureza desse ofício pelo oficioso desse esforço não sei você mas eu por dentro sou só texto
Quem sabe esteja aí a raiz deste meu cansaço, desta impossibilidade de me definir categoricamente e de me abandonar de uma vez por todas. É o inevitável caminho da vivenda humana em sua finitude indistinta e infinitude do porvir. É o querer ser a íris no jardim e acabar sendo a imagem narrada da flor.
(o poema incluído neste texto é aos pés da letra de Luci Collin e a citação é do livro Quando a casa queima de Giorgio Agamben)
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